Remédio e veneno

Remédio e veneno

Entre eles o amor era tóxico. Muito veneno pra pouca doçura. Peso no lugar da delícia. Não funcionavam juntos, mas também não funcionavam separados. Sim, a sintonia era perfeita, mas precisavam encharcar as noites de música e álcool para que fosse possível sua existência mútua. No resto do tempo, tudo o que vinha deles consumia a ambos, machucando, intoxicando e viciando. Eram o remédio e o veneno um do outro. E se reconheciam assim.

Eles se davam as melhores e piores coisas do mundo. Juntas, misturadas, enroscadas, estranhas e incríveis. Amor, brigas, sexo, mentiras, risadas, ofensas, carinhos e agressões se alternavam na mesma intensidade e proporção. Já não sabiam mais se brigavam por que se gostavam demais ou se se gostavam demais por que brigavam. Estavam viciados neles mesmos.

Vez ou outra, nos intervalos dessa tortura passional, a lucidez aparecia pra sussurrar que tudo isso era loucura, que nunca iria terminar bem. Eles não conseguiram escutar. Os gritos – de paixão e de raiva – eram mais altos que os sussurros lúcidos que a vida dava. Ficaram cada vez mais surdos, mais cegos e mais burros. Só conseguiam viver a partir dessa dinâmica esquizofrênica na qual o amor é violento e o ódio é carinhoso. Não sabiam se gostar sem se ferir.

E seguiram assim, se amando e se odiando. Se destruindo e se completando. Doendo e gozando. Chegando e partindo. Esperando que algum dia a lucidez aprendesse a gritar.

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