Entrelinhas

Fazia muito tempo. Na cabeça dela, quase uma vida inteira. As memórias e a história deles já começavam a juntar poeira na estante dos casos amorosos que morreram antes da hora. Ela já conseguia lembrar de tudo com menos saudade e mais razão. Dava risada da canalhice encantadora dele e lembrava sem dor das brigas encharcadas de lágrimas.

Mas com um email, toda a força daquilo que eles tinham vivido entrou como um trem pelos vãos dessa memória que começava a esfarelar. Atropelou a normalidade e deu um soco na cara das quase certezas que ela tinha. Mesmo tanto tempo depois, a intensidade do passado fez tudo mudar de cor. E sempre foi assim: quando ela começava a ensaiar uma nova dança, ele voltava pra lembrar que a música deles ainda era mais bonita. E ela sempre vai escutar essa canção uma outra vez.

A conversa foi rápida, disfarçada de simplicidade. Mas entre todas as letras do que ele dizia havia um mundo inteiro de coisas para serem gritadas. Na resposta dela, fria e disfarçada de despreocupação havia todos os suspiros que ela já soltou por ele. Ela queria poder contar da nova vida dela, do novo álbum do Daft Punk, de como agora ela vai à academia três vezes por semana e da última coluna do Contardo Calligaris. Ela queria perguntar se ele ainda tinha a péssima mania de tomar um litro de café antes de dormir, se tinha consertado o abajour da sala e se ele ainda continuava achando que Ramones é uma banda overrated.

Mas não: tudo o que ela conseguiu dizer foi que ela tem sido uma garota de sorte e que a vida sempre coloca muita gente especial no caminho dela. Ninguém falou de sentimentos. A saudade, a paixão, as lembranças, os medos, gritos e beijos trocados ficaram trancados naquela gaveta que ninguém quis abrir (mas que os dois tem a chave).

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Aquilo que se sente

Admiro as pessoas verdadeiras com seus sentimentos. Gente que não coloca aspas, nem reticências e não usa eufemismo com o que sente. Gente que corre o risco de expor-se e que sempre vai soar um pouco exagerada para todo o resto que usa máscara. Gente que se posiciona.

Gosto daqueles que gritam, escrevem cartas de amor, fazem serenatas sem saber cantar. Gente que enfrenta o medo de parecer ridículo para dizer que conhece a pessoa há uma semana, mas que não para de imaginar como seria ela acordando ao seu lado. O outro lado da moeda também é verdadeiro: pessoas que quando não querem, simplesmente dizem isso e vão embora. Pegam a mesma rua daqueles que nunca voltaram.

O que não dá é pra viver on hold. Esperando uma reação/resposta do outro para saber o que fazer depois. Não. O sentimento é próprio de cada um, e a melhor (e mais bonita) maneira de vivê-lo é deixando que ele entre e ocupe tudo o que é nosso.

Não acredito e não entendo muito bem as pessoas que querem uma coisa mas preferem disfarçar e ver no que dá. Se você faz isso, ou você tem medo, ou não quer o suficiente. Esconder sentimentos é uma chatice. A vida é muito curta para não ter a cara-de-pau daqueles que carregam todos os sentimentos do mundo: amor, dor, ódio, desejo e paixão.

Eu sou assim e procuro gente assim: que assine embaixo daquilo que sente. Que entenda que sentimento vivido é muito melhor do que sentimento fantasiado de serenidade.

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Vem, 2013

Acabou mais um. E outro vai começar. Cada virada de ano é uma nova chance que a vida dá pra gente tentar ser melhor. Pra tentarmos fazer certo. É a vitória da esperança sobre esse monte de loucura que a gente anda vendo por aí. E até eu, que só tenho copos meio vazios, quero acreditar que esse mundão ainda tem jeito. 

Eu desejo que 2013 seja todo feito de risadas, abraços, surpresas e amores. Que todas as coisas, lugares e pessoas velhas que atrasam nossa vida fiquem lá atrás, junto com o último minuto de 2012. Que virem lembranças e não traumas. Que tenham o tamanho que devem ter e a importância que merecem. Que a nossa estante esteja vazia pra 2013 enchê-la de coisas boas.

Que sejamos simples, leves e abertos. Que nossos muros internos sejam cada vez menores. Que a gente pare de se trancar pra vida. Que nossos dias sejam uma doação da gente pra gente mesmo. Vamos nos permitir à felicidade. 

Eu desejo também bom humor. Paciência pra aguentar gente chata. Dias de sol. Filas pequenas. Dinheiro no bolso. Rede na varanda. Pé na areia. Coração aberto. Beijo na boca. Cama pra dois. Comida de vó. Viagens incríveis. Amigos e família sempre perto. Música boa. Cerveja gelada. Um mural sem fotos pra crescer junto com o novo ano e tudo de lindo que vai acontecer pra gente.

Vem, 2013.

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Pra dançar outra vez…

Eu sou uma pessoa de opiniões super fortes. Até que elas mudem. Tudo na minha vida é o que é até deixar de ser.

E eu vivia falando pra todo mundo que não sentia saudade. De nada e de ninguém. Sentia uma falta comum, ordinária e passageira. Nada que tomasse meu tempo.

Aí vem a vida/Deus/Diabo e me dá esse tapa na cara que é você. Aliás: que é você longe de mim. Tipo Buchecha sem Claudinho.

Agora eu me pego revivendo todas as pegadas do tempo relâmpago que a gente dividiu. Cada risada, cada conversa, cada cerveja e cada beijo. Conto a nossa história pra mim mesma todos os dias.

Me pego relendo as nossas mensagens e rindo outra vez com a sua piada besta. Revejo todas as nossas fotos e me pergunto se naquele momento eu sabia que aquilo deixaria saudade.

Lembro do detalhe da sua pólo azul. Lembro da primeira vez que te vi e o comentário azedo que eu fiz. Lembro exatamente do momento em que seu humor me ganhou. Lembro o sabor do sorvete que você pediu e do toque do seu telefone. A equação “memória fotográfica + saudade” é uma merda. Uma forma romântica de obsessão.

Por enquanto estou aqui, ouvindo essa mesma música na esperança que você me tire pra dançar outra vez.

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É menor que um email

Eu preciso me distrair de você. Pensar em outras coisas, enxergar outros horizontes, brincar com cores novas.

Há algum tempo tenho aberto mão do meu roteiro pra viver a sua história – que tem muitas personagens como eu. Não posso me alimentar das frases soltas, galanteios bobos e mentiras graciosas que você me oferece. Vou morrer de fome.

Preciso resistir à vontade de acreditar na poesia disso tudo e entender que você é só mais uma obsessão, mais uma página, mais um motivo pra beber. Uma futura lembrança.

Tenho que resistir à sua voz grossa me fazendo promessas tentadoras. Preciso botar uma coleira no meu romantismo.

Não posso ficar parada no mesmo lugar torcendo que seu caminho por acaso passe por ali. E que também por acaso você resolva ficar.

Não posso deixar que essa vontade de ser inteira sua me faça ser só a metade de mim.

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Sobre amores de verão

Eles viveram umas daquelas paixões de verão que se definem por que são intensas, efêmeras, entusiasmadas e cheias de esperanças com prazo de validade curtíssimo. Beijos, abraços, muita química e pra sempre até que a realidade bata à porta. Uma fantasia de carnaval para dois corações que começavam a endurecer frente tanta coisa sem graça. Um desvio delicioso da monotonia da vida real.

Foi daquelas paixões que fazem as pessoas dividirem camas de solteiro no calor de 30 graus e acordarem sem sentirem um músculo do corpo. Que nos fazem planejar morar em Barcelona e ter filhos espanhóis (que terão os olhos do pai e o sarcasmo da mãe). Paixão de tardes com mojitos sob o sol da Espanha e de cervejas estranhas no verão friorento de Bruxelas. Paixão que faz com que as horas perdidas procurando um restaurante no Bairro Gótico sejam mais uma história pra contar. Que a batata frita dividida na escada seja banquete. Que beber cerveja quente na rua seja uma delícia. Que ficar horas na areia da praia mais caída de Barcelona pareça “A Lagoa Azul”

Paixão que te faz pegar o primeiro avião com destino à felicidade. Mentira. Com destino a Bélgica. A mesma paixão, te faz mudar a passagem duas vezes por que você achou que o tempo que passaria com ele seria muito curto. Paixão que te faz rir quando começa a chover e vocês estão com as malas no meio da rua.

Paixão daquelas que em que se cria um mini-universo particular com piadas, cheiros, pensamentos e toques que só vocês dois podem entender. Um mini-universo com uma sintonia quase telepática. Impossível para os apaixonados que nunca tiraram o pé do chão. Paixão daquelas que te faz quase ser atropelada por um ônibus (literalmente) por que a conversa dos dois era muito mais interessante que um mero farol vermelho.

Foi daquelas paixões embaladas por Stevie Wonder, Marvin Gaye e Chet Baker. Pontuada por episódios de Friends e comida indiana. Paixão poliglota: ora em português, ora em francês, ora em espanhol, ora em inglês. Por momentos (os melhores), sem idioma algum. Uma paixão na qual os clichês eram deliciosos e as conversas afrodisíacas. Paixão de noites não dormidas e sonecas carinhosas. Paixão para encher uma vida de lembranças.

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Women at work

60 mulheres, 3 gays e um hétero.

Essa é a realidade nua e crua da agência de comunicação onde eu trabalho.

Tudo acontece ao mesmo tempo: choro (muito choro), risadas, reclamações, trocas de segredos (nunca tão secretos assim), comentários sobre a novela, sobre regime, sobre homens, sobre ansiedade, sobre onde fazer a unha, sobre como nunca temos dinheiro pra nada. Existe a porção séria que discute política, religião, psicologia e futebol (sim, futebol é sério).

As solteiras reclamam de carência. As casadas reclamam do marido. Os gays reclamam que a gente reclama. O coitado do hétero fica quieto.

Tem aquela que acabou de casar, aquela que quer separar, a que ainda ama o ex, a que cada dia ganha flores de um cara diferente. Tem a que tem um caso um cara casado, a que está indo morar junto com o namorado de infância. Tem a que namora dois ao mesmo tempo e que aquela que descobriu os prazeres da solteirice.

Todas reclamam o dia inteiro que estão gordas. Na hora do almoço, elas voam pro Ritz pra se entupir de bolinho de arroz.

Uma fiscaliza o ex da outra e filtra o que vale ou não ser contado. Peguetes novos são avaliados meticulosamente e quase nunca passam pelo tribunal das solteiras carentes e casadas de saco cheio.

Todas bebem em excesso e acreditam que a garrafa é o caminho da alegria.

James Franco, Ryan Goslin e Johnny Depp são unanimidades. Gisele e Angelina também (trabalhar com moda é sentir inveja em tempo integral).

Terapia, taróloga, astróloga, cabala, igreja. Todas acreditam em alguma coisa e tem medo de macumba. Pior que isso, só praga da ex do seu atual ou da atual do seu ex. Credo!

A TPM é conjunta e um tsunami de drama invade o escritório mensalmente. Não há chocolates, remédios ou lenços de papel suficientes no mundo para conter essa força da natureza.

Nenhum assunto dura mais do que um minuto em um ambiente como esse. O poder feminino de associar histórias é assustador.  A viagem de férias de uma, lembra a outra da receita, que faz a outra lembrar que tinha de ter levado a filha ao médico que termina com a outra dizendo que é por isso que nunca terá filhos.

E no meio disso tudo, a gente encontra tempo pra ser competente e fazer sempre melhor (com a unha pintada e o cabelo escovado, claro).

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